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Entrevista a Emídio Júnior, treinador de guarda-redes do Nacional

Entrevista a Emídio Júnior, treinador de guarda-redes do Nacional
5 Junho, 2014 | por Roberto Rivelino
Entrevistas

Emídio Júnior chegou à Ilha da Madeira há 10 anos, com 19, depois de ter jogado em Pernambuco, no modesto Central Sport Clube. Encontrou-se com a profissão “por mero acaso” no Andorinha e beneficiou da saída repentina de José Belman, treinador e ex-guarda-redes do Nacional, que partiu para o Santos Laguna, do México, com Pedro Caixinha.


Em 2013/2014 treinou Eduardo Gottardi, um dos melhores guarda-redes da Liga Zon Sagres, Ricardo Batista e Rui Silva nos seniores do Nacional e os seus métodos são do agrado do experiente Manuel Machado, que valorizou o trabalho de Emídio em Dezembro de 2012 e nunca mais precisou de outro treinador de guarda-redes.

O Mundo dos Guarda-Redes entrevistou Emídio Júnior, que dá a conhecer o seu trabalho e o seu vício pelo treino de guarda-redes:

Roberto Rivelino: Como é que o Emídio chegou a treinador de guarda-redes do Andorinha?

Emídio Júnior: Por mero acaso. Na altura, era guarda redes dos seniores e tive sempre o grande desejo de um dia poder ser treinador de guarda-redes.
Como o treino dos seniores do Andorinha era pelas 21H, tinha sempre a possibilidade de observar os treinos dos escalões de formação. Nessa altura, o clube não tinha ninguém para orientar os guarda redes, o que originava a ausência de um treino especifico para um lugar tão importante.
Face a esta situação, o coordenador da formação do Andorinha, começou a perceber que eu estabelecia um diálogo permanente com os guarda redes e perguntou-me se eu gostaria de os treinar. O meu entusiasmo foi grande, até porque, sempre senti vocação para esta área do treino, tendo iniciado as funções de treinador dos escalões de formação, na época de 2007/2008 e, simultaneamente, era guarda redes da equipa sénior.
RR: Como captou a atenção do Nacional da Madeira?
EJ: O convite que me foi dirigido pelo Clube Desportivo Nacional, está na sequência do trabalho que realizei no Andorinha e na evolução que os guarda redes deste clube tiveram, que me deixou muito entusiasmado e motivado.
A partir da época de 2011/2012, passei a ser o coordenador e treinador de todos os escalões de formação do Nacional.
Apesar de ter desenvolvido um bom trabalho no Andorinha,onde deixei muitos amigos, sem duvida que a minha ida para o Nacional abriu-me outras hipóteses, tanto mais que o clube tem excelentes condições para qualquer treinador se sentir motivado e empenhado para desenvolver um trabalho de qualidade.RR: Nessa primeira fase, começou como treinador de guarda-redes da formação. Quais foram as principais diferenças e impactos que conseguiu notar entre treinar os seniores do Andorinha e as escolas de base do Nacional?
EJ: Como fiz referência na pergunta anterior, a maior diferença que encontrei no Nacional, em primeiro lugar, foi a excelência das suas instalações e o número considerável de atletas de todos os escalões etários, bem como a sua qualidade.
Passei de um clube de dimensão regional para um de dimensão nacional, cujo nível de exigência a nenhum responsável fica indiferente.
Assim sendo, senti desde logo a necessidade de investir na minha formação e pesquisar tudo o que estivesse relacionado com o treino de guarda redes nos diferentes escalões etários.

RR: Quando teve que assumir o escalão sénior, foi chamado de urgência. Quer relembrar o momento?
EJ: Num clube com a dimensão do Nacional,qualquer treinador, tem sempre a ambição de chegar a patamares mais elevados e eu não fugi a essa regra. Ambicioso e responsável como julgo ser, para além da grande dedicação nos treinos, sonhava poder chegar um dia a treinador da equipa sénior.
Quando se dá a saída do professor Caixinha e do Belman, que na altura era o treinador de guarda-redes, o professor Manuel Machada ingressa no Nacional e observando o trabalho que eu vinha realizando na formação, indicou o meu nome à estrutura directiva do Nacional, o que me deixou muito feliz, pois isso significava um voto de grande confiança nas minhas qualidades, vindo de um dos maiores técnicos portugueses.
Na verdade, foi um grande momento para a minha vida profissional e que não esquecerei jamais, tanto mais, como fiz anteriormente referência, essa prova resultava da confiança em mim depositada por um treinador de grande prestigio e funcionava como um elemento motivador para a necessidade da minha constante formação.

 

RR: Nesta temporada que findou, Gottardi por um jogo não foi um dos guarda-redes totalistas da Liga Zon Sagres, algo que prova a sua qualidade e momento de forma. Em que particularidades acha que Gottardi melhorou da temporada passada para esta e em que patamar ele se encontra, quando comparado com os guardiões de Benfica, Porto e Sporting?
EJ: Não vejo, na minha opinião, grande diferença entre o Gottardi e os guarda redes dos três grandes clubes do futebol português e considero que a sua grande capacidade e qualidade, não só a nível técnico como a nível humano, lhe dão a possibilidade de fazer parte dos quadros futebolísticos desses três grandes clubes!
O Gottardi é um excelente guarda redes,extremamente profissional,com nível de concentração muito bom e sempre motivado para o treino. Contudo ,reconheço que devido ao trabalho que tenho vindo a realizar com ele, tornou-se mais seguro, mais confiante e tudo isso advém do facto de ter sido regularmente utilizado,o que provoca, como é natural, um equilíbrio emocional tão necessário à sua evolução.
O Gottardi, na verdade, é uma pessoa que dá gosto trabalhar e que dá grande satisfação a todo o responsável pelo seu treino.
RR: Que trabalho tem feito em particular com Rui Silva, que é reservado como uma jovem promessa e tem sido presença assídua nos sub-20 de Portugal?
EJ: O meu trabalho com o Rui Silva, vem de há duas épocas, tendo primeiro sido seu treinador enquanto júnior.
O Rui tem um futuro brilhante pela frente e a sua margem de progressão é bastante significativa. Continuando a trabalhar com grande empenho e dedicação como tem feito até aqui, sem dúvida, o futuro dele é bastante promissor.
Para além do trabalho técnico que houve que realizar, quando ainda era júnior, tivemos que realizar um trabalho de muito diálogo, no sentido de fazer sentir ao atleta a necessidade de um empenho permanente nos treinos, para poder afirmar-se no futebol profissional. O resultado da conjugação desses factores tem sido determinante para sua evolução.RR: Ricardo Batista vive uma fase de “reabilitação” na carreira e especula-se que estará de partida para África. Quais são os motivos para a carreira de um promissor guarda-redes ter estagnado deste modo?

EJ: O Ricardo Batista quando chegou ao Nacional, trazia uma paragem de dois anos e seis meses. Uma paragem muito grande, muito em especial para um guarda-redes. Como é natural, tinha havido uma estagnação na sua evolução e haveria que recuperar. Assim sendo, e gradualmente, foi conseguindo atingir os níveis exigidos, com muito empenho e trabalho diário. A sua recuperação é uma realidade.
É um grande guarda redes,com uma sólida qualidade técnica ,a que não é alheia a óptima formação que teve nos escalões de formação.
RR: No Nacional também treinou Vladan.
EJ: Treinei com o Vladan por cinco meses, e posso afirmar que se trata de um grande guarda redes, de qualidade técnica excelente, e tem grande margem de progressão se sua dedicação ao treino for de maior empenho.

RR: Que marcas é que o seu trabalho tem deixado? Vê melhorias nos guardiões? Em que aspetos?

EJ: É sempre difícil fazermos uma análise ao nosso trabalho, pois corre-se o risco de sermos mal interpretados.
Em consciência, verifico uma evolução significativa em termos técnicos, bem como na sua capacidade de trabalho, já que são excelentes profissionais e óptimos seres humanos.
A sua entrega ao treino é constante, bem como o grande entusiasmo e motivação, o que contribui para a sua evolução, aliás ,qualidades essas fundamentais para a sua afirmação profissional.

RR: Qual é o contentamento geral do staff, direcção e associados quanto ao seu trabalho?
EJ: Sinto que estão a gostar do trabalho que tenho vindo a realizar, embora no inicio tenha sentido alguns constrangimentos, a que não era estranho a minha juventude e à pouca experiência no futebol profissional.
Quero, salientar, no entanto, que passado esse pouco tempo, tive sempre o apoio da equipa técnica, bem como da estrutura directiva do Nacional, o que facilitou, em muito, a minha completa adaptação e integração. Isto implicou uma motivação muito grande para o meu trabalho e a certeza que todos tinham depositado confiança em mim. Quando se tem um ambiente desta natureza, a satisfação é permanente, o que enche de orgulho qualquer profissional.RR: Identifica-se com alguma escola/técnica de treinamento de goleiros?

EJ: Identifico-me com a escola brasileira, tentando passar para os meus guarda-redes os aspectos fundamentais desta escola, a que não é estranho o facto de ter feito toda a minha formação no Brasil,embora seja necessário fazer alguns ajustamentos,em função das características dos guarda redes que treinamos.RR: Traz consigo algo que o identifica na preparação do guarda-redes?

EJ: Tenho uma forma intensa de trabalhar. Baseada na seriedade, na entrega e no empenhamento de todos, bem como na valorização de um diálogo permanente com os meus atletas, pois considero um factor determinante para a sua entrega ao treino e o acreditarem no trabalho do seu treinador .A existência de um mútuo “acreditar” no trabalho que se realiza só beneficia a sua evolução.RR: Que referências tem dentro do treino de guarda-redes?

EJ: Com o passar do tempo vamos conhecendo grandes profissionais, com os quais tenho estabelecido uma constante troca de ideias, muitas das quais me identifico, mas não tenho referencia em nenhum em particular. Acho,contudo,muito importante esse diálogo,tão importante para a nossa evolução.RR: Quais foram os seus ídolos da baliza?

EJ: Quando comecei a minha função de guarda redes, tinha como referência Zetti, antigo guarda redes do S.Paulo nos anos 90, e Taffarel,que foi um dos maiores guarda-redes do Brasil e que era motivo de inspiração para muitos de nós.RR: Qual é o seu posto de trabalho de sonho?

EJ: Qualquer profissional sempre sonha mais alto e eu não fujo a essa regra, contudo, o lugar de sonho é sempre aquele em que nos encontramos e onde nos sentimos bem; onde te deixam trabalhar, sem sentires uma pressão permanente e todo este bom ambiente eu sinto no Nacional.
O meu sonho era poder chegar à principal Liga do futebol português e graças a Deus já cheguei.

Mensagem de Emídio Júnior para O Mundo dos Guarda-Redes:


“Gostaria de salientar a importância dada por “O Mundo dos Guarda Redes” por esta área do treino desportivo e, algumas vezes, esquecida no futebol, apesar de sua importância, tão “viciante”, se assim se pode chamar, como é ser, estar e trabalhar com guarda redes redes.
Muito obrigado e continue com este projecto maravilhoso.”