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Manuel Neuer – “Um monstro chamado Neuer” – Rui Dias

Hoje, no jornal Record, Rui Dias, jornalista redactor principal do diário, assina o seu espaço semanal com “Um monstro chamado Neuer”, num artigo digno de registo sobre o guarda-redes Alemão.

O Mundo dos Guarda-Redes revela-o, aqui, na íntegra

“1 – Helenio Herrera, um dos treinadores mais influentes de sempre, penitenciou-se pelo dano que causou ao futebol ao afirmar que, quando optou pelo líbero (mais dois centrais), o jogador que idealizou não era o opaco Picchi mas o deslumbrante Franz Beckenbauer, que surgiu pouco depois. El Mago aliviou assim o odioso de ter recorrido a repressão e despudor no Inter Milão campeão europeu dos anos 60: imaginou o melhor defesa da história do futebol, utilizou um jogador contundente que não construía. O mesmo se passará com os senhores do International Board quando obrigaram os guarda-redes, no início dos anos 90, a uma participação mais abrangente. Se sobreviveram até hoje, também eles dirão que tomaram a decisão a pensar num modelo imaginário mas que hoje existe e tem nome: Manuel Neuer.

2 – O alemão é o guarda-redes dos tempos modernos, este em que as equipas são compostas por 11 jogadores e não por dez mais um como foram no passado. É por isso incompreensível que a FIFA diferencie jogadores de campo e guarda-redes. Uma estupidez, porque são todos futebolistas, integrados no mesmo universo mesmo tendo funções distintas. Neuer foi a estrela maior do Mundial, pelo que defendeu mas também pela dimensão dada a todas as vertentes da tarefa. A jogar com os pés confirmou riqueza técnica e visão ao nível de qualquer outro elemento da equipa. É o líbero que antecipa os lances, chega sempre primeiro e tem talento para medir a temperatura dos factos. Nunca se engana em tomadas de decisão com influência na coesão coletiva.

3 – Aos 28 anos, aproveitou as vantagens da experiência e consolidou os ensinamentos de uma vida passada debaixo dos postes. Fê-lo sem perder reflexos, agilidade, instinto, ilusão e coragem, armas juvenis que foram a base para o processo de enriquecimento dos fatores adultos indispensáveis para quem desempenha função tão exigente. Ser guarda-redes é tarefa interdita a menores e até os fenómenos são puzzle que se vai completando aos poucos. O poder de intimidar, por exemplo, definidor de um guardião do templo, aumenta com o passar dos anos. Quando sai ao encontro de qualquer avançado, Neuer é muito mais do que um homem: é um monstro com 1,93 m e 92 kg, que ocupa o espaço, reduz o adversário à insignificância e acaba dono da situação.

4 – Neuer é o melhor guarda-redes dos últimos 25 anos; o mais completo na resposta às exigências táticas e comportamentais de um jogo cuja evolução tem passado também pela credibilização do lugar que ocupa. Personifica a evolução tremenda que os guardiões precisaram de fazer para se adaptarem a um novo futebol, porque se antes só defendiam, hoje estão obrigados a jogar também; porque se antes eram peças soltas da engrenagem, hoje fazem parte da máquina, muitas vezes com funções de liderança, coordenação e orientação da manobra defensiva. Neuer é o expoente máximo como elemento tático relevante nas equipas que representa porque, recusando a prisão da grande área, define se a equipa sai a jogar curto ou longo; depressa ou devagar; em segurança ou risco. É o guarda-redes perfeito. Um dos melhores de sempre.”

[Um agradecimento a José Dias.]


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